Trabalho Socioemocional e as Rotinas de Pensamento no 1º ano do Ensino Fundamental

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Olá comunidade Ativa!  Hoje estou aqui para contar mais um pouco mais das minhas experiências com as Rotinas de Pensamento Visível em sala de aula.

Sou Malu Brandão, pedagoga e atuante há mais de 20 ano em Educação Infantil e há 2 anos atuando no 1º ano do Ensino Fundamental. Apesar de conhecer as Rotinas de Pensamento desde 2019, quando participei do curso “Visible Learning” com a Julia no Instituto Singularidades, foi somente neste ano de 2024 que comecei a aplicar sem medo as rotinas em sala de aula. Essa história eu já contei no meu primeiro post por aqui, onde eu trago a reflexão sobre as adaptações das Rotinas para trabalhar com crianças mais novas, que você pode conferir aqui!

Continuo na minha “pesquisa de campo” em trabalhar as Rotinas junto ao desenvolvimento socioemocional dos estudantes. Saindo um pouco do Mapa da Empatia, que foi a primeira Rotina que me vem a cabeça quando penso nessa área do conhecimento, busquei 2 outras Rotinas que foram muito bem aceitas e envolventes com meus estudantes: Ouvir 10X2 – com algumas adaptações e “Imagine se…”. Abaixo relato as duas aplicações!

Atividade 1 – O SOM DO SILÊNCIO – Atividade de Mindfullnes (atenção plena)
Rotina de Pensamento utilizada: Ouvir 10X2

O objetivo desta atividade era exercitar o ato de escutar e perceber os sons ao seu redor, ampliando a atenção dos estudantes para fora e percebendo o ambiente em que estamos inseridos de forma mais ampla.
Parece estranho pensar na Rotina OUVIR 10X2, para uma atividade chamada O SOM DO SILÊNCIO, mas o objetivo era esse mesmo! Partindo da provocação: “será que o silêncio tem som?”, desafiei meus alunos a permanecerem em silêncio absoluto por 5 minutos e prestassem atenção as sons ao redor. Para isso, apaguei as luzes da sala, pedi que eles sentassem de forma confortável e fechassem os olhos. Tudo isso para voltar sua atenção por completo ao som que o nosso silêncio faz. Para tornar o momento ainda mais significativo, fiz a proposta: após os 5 minutos, eu tocaria um sino e eles precisariam listar pelo menos 5 sons que eles tivessem escutado nesse período – aproveitando para trabalhar também a alfabetização e escrita espontânea.
Algumas regras foram combinadas antes da atividade começar:
1. Era preciso realmente fazer silêncio e controlar sua vontade de falar e participar durante os 5 minutos;
2. Em alguns momentos eles também ouviriam alguns sons emitidos pela professora (efeitos sonoros);
3. Na hora de escrever o que escutaram, não poderia compartilhar com os colegas, pois cada um poderia focar sua atenção para um tipo de som do ambiente – seja da rua, do corredor ou sons de dentro da sala de aula;
4. Após a primeira rodada, os alunos sabiam que teriam mais 5 minutos no silêncio para escrever novos sons – aqui era outro desafio: eles precisariam listar outros sons que eles não haviam percebido da primeira vez, montando assim uma 2ª lista;
5 – O compartilhamento só aconteceria após a 2ª rodada, para que eles não “viciassem” a atenção.

Quando pensei na atividade, me preocupei se as crianças iriam conseguir listar os 5 sons, por isso pensei numa sonoplastia, onde alguns sons foram encaixados no silêncio de forma mais “óbvia”. Mas ao final da atividade percebi que não seria necessário, apesar de ter enriquecido muito a discussão após o exercício.
Após as duas rodadas, começamos o compartilhamento com mais um desafio: cada criança precisaria falar 1 som que ouviu, tentando não repetir o amigo (algo que pensei que seria impossível), uma vez que na sala temos 30 alunos e não tínhamos 30 sons diferentes. E foi uma surpresa: foram levantados 42 sons diferentes (registros na imagem 1)! A discussão sobre os diferentes sons escutados foi muito rica, a cada contribuição tentamos ouvir juntos e quando fazia parte da “sonoplastia” da professora, eu colocava novamente o som e as crianças foram percebendo que cada um deles entende aquele som de uma forma diferente!

Esta não foi a primeira vez que utilizei esta Rotina com esses mesmos alunos. No primeiro semestre tivemos alguns desafios utilizando o ouvir 10X2, porém mais voltado para a alfabetização em si. Uma delas foi com a música “Tu tu tu tupi”  (de Hélio Ziskind)  em que os alunos precisaram escutar a música e listar as palavras em Tupi que fazem parte de nossa língua. A outra experimentação da Rotina foi a partir do livro “Os oito pares de sapatos de Cinderela” (de José Roberto Torero, Marcus Aurelius Pimenta, ed. Companhia das Letrinhas) em que, em um determinado ponto da história, a personagem encontrava uma “bagunça de A a Z” no porão de sua casa e são listados todos os objetos encontrados, cada um iniciando com uma letra do alfabeto. Assim, o desafio era ouvir a parte da história uma vez e tentar fazer a lista de objetos e, depois de um tempo, eles escutaram novamente a mesma parte da história e tentam completar sua lista (imagem 2).

Relatos esses outros momentos para chegar a minha conclusão: na primeira vez que utilizei essa Rotina com as crianças, eles ficaram muito preocupados em não conseguir fazer as 2 listas. Após o encerramento das atividades, eles perceberam que está tudo bem fazer o que conseguir. Que a regra na verdade é apenas um desafio. Quando propus a atividade do Som do Silêncio, essa preocupação já não existia mais, o que fez com que o objetivo da atividade em focar apenas nos sons fosse atingido com mais assertividade. E isso só mostra o quão importante é que a rotina de pensamento seja realmente uma rotina!

Imagem 1 – lousa com os sons levantados pelos alunos depois da atividade “O som do silêncio”. Fonte: fotos da autora.

Imagem 2 – lista de alguns dos alunos com a proposta ouvir 10X2 – adaptada para o contexto da história contada “Os oito pares de sapatos de Cinderela” . Fonte: fotos da autora.

Atividade 2 – OS ÓCULOS MÁGICOS DE CHARLOTTE 
Rotina utilizada: Imagine-se…

Nesta outra atividade, usei como base o livro “Os óculos mágicos de Charlotte” (escrito por Suppa – ed. Callis), que conta a história de Charlotte, uma menina que, quando seu dente de leite cai e ela o coloca embaixo do travesseiro e a fada do dente deixa um óculos. Não demora para Charlotte entender que eram óculos mágicos, que davam a ela o poder de enxergar o mundo como ele deveria ser, sempre vendo as coisas boas e felizes.
A leitura do livro já gerou uma conversa super rica com os alunos, pois em nenhum momento da história ficava explícito em palavras qual era o verdadeiro poder desses óculos, e sim apenas pelas imagens. A atividade em cima da rotina de pensamento “imagine se” durou 3 aulas, com 3 etapas:
1ª etapa – leitura e conversa sobre a história;
2ª etapa – na semana seguinte fizemos na sala uma porta mágica que, quando você passasse por ela você teria o poder de transformar algo no mundo. Os alunos que chegassem na escola e entrassem na sala pela porta mágica, pegava um papel e escrevia seu desejo de transformação – este foi um aquecimento para posteriormente concluirmos a atividade.
3ª etapa – cada criança pode fazer o seu óculo de Charlotte. Entregamos um molde de óculos e uma lente de acetato, nessa lente eles desenharam o que eles queriam ver a partir da rotina de pensamento: “imagine que você ganhou um óculos mágico igual o de Charlotte! O que você veria através dele?”

A atividade ficou muito interessante e as crianças se envolveram bastante. Acabamos construindo um mural com os óculos de cada criança e utilizamos a mesma rotina para fazer um mural interativo para aqueles que passassem no corredor da sala também pudessem escrever seu desejo de transformação. Abaixo as imagens da atividade (imagem 3):

Imagem 3 – mural feito com os trabalhos dos alunos seguindo a Rotina de Pensamento “Imagine se…” a partir da leitura do livro “Os óculos mágicos de Charlotte”. Fonte: fotos da autora.

Imagem 3 – Mural interativo para quem quiser contribuir com o convite a imaginação “Imagine que…O que você transformaria?”. Ao lado, detalhe de alguns dos post-its deixados. Fonte: fotos da autora.

E aqui eu deixo a provocação para vocês: o que vocês transformariam se tivessem um óculos mágico?

Uma resposta

  1. Malu sua prática ficou sensacional e a pergunta final mobiliza a imaginação de todos!!! O trabalho com as RP é realmente muito potente! Ficamos curiosos em saber o que surgiu dos estudantes ou leitores do painel final: o que escreveram que transformariam com óculos mágicos?

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