Somos a primeira geração de pais que precisa aprender, junto com os filhos, a habitar um mundo que não existia quando crescemos. Nesse imenso mundo digital, não temos mapa, nem referências estáveis. É como se estívéssemos abrindo uma trilha numa floresta densa em região montanhosa, sem saber ao certo o que nos espera na próxima curva. A resposta mais comum de muitos pais (proibir a entrada nessa floresta) é também a mais frágil.
Cheguei a essa paisagem desafiadora como mãe, não pela teoria. Uma experiência dolorosa na escola anterior (bullying intensificado por grupos de WhatsApp) nos levou à decisão de mudar para uma nova comunidade escolar. Nesse deslocamento, entrei no comitê de letramento digital da nova escola, movida por uma certeza: nenhuma família resolve os perigos do nosso atual contexto digital sozinha.
Há pelo menos um ano mergulhada nesse sobe desce de ribanceiras escorregadias, apoiada e acolhida por mães incríveis e pelo Movimento Desconecta, já tenho outra certeza: o contrário da captura algorítmica não é ausência de tecnologia. É presença humana, confiança construída entre pais e filhos e um novo letramento, ético e digital ao mesmo tempo, para todos. Um paper publicado em abril de 2026 na revista Science trouxe as evidências do que já intuía. Antes de resenhar essas evidências, começo pelo desenho do contexto das crianças e adolescentes hoje.
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Nosso contexto atual
O problema começa antes da adolescência. Um estudo da OCDE de maio de 2026 (IELS-2025) mostrou que 50,4% das crianças brasileiras de 5 anos já usam celular, tablet ou computador todos os dias (acima da média internacional, de 46%). A pesquisa mostrou impacto direto nessas crianças expostas a telas: notas 11 pontos menores em matemática e 10 em vocabulário, o equivalente a quase um ano de aprendizado perdido. E veja: crianças de cinco anos! Antes mesmo de aprender a ler, as crianças brasileiras já estão acessando YouTube e TikTok, reclassificados para 16 anos pelo ECA digital (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente).
Os efeitos se acumulam à medida que crescem. O PENSE 2024 (IBGE, 2026), maior pesquisa de saúde escolar já feita no Brasil, mostra que entre as meninas de 13 a 17 anos, 41% relatam tristeza constante, quase metade tem vontade de se machucar e 25% sentem que a vida não vale a pena! Entre os meninos: 20% com vontade de se machucar, 12% sentindo que a vida não vale a pena! Os atendimentos por ansiedade no SUS entre crianças de 10 a 14 anos cresceram 2.500% entre 2014 e 2024, exatamente o período em que as plataformas passaram a dominar a sociabilidade adolescente.
Evidências reunidas, passamos a compreender que da violência nas escolas aos crescentes casos de ansiedade, automutilação e depressão, não estamos diante de um problema de comportamento individual. Ou seja, como bem analisa o psicólogo Jonathan Haidt (2024) em “A Geração Ansiosa: por que a infância hiperconectada é prejudicial às crianças”, estamos diante de uma crise de saúde pública impulsionada em tempo real pelas big techs enquanto ainda tentamos entender o que acontece em casa.
O risco não é genérico: causa danos reais uma vez que o design das ferramentas foi feito intencionalmente para viciar e definir um perfil preferencial para induzir ao consumo (perfilamento). Para as meninas, os impactos mais documentados são na autoestima e no consumismo: algoritmos de comparação alimentam inseguranças sobre corpo, roupas, alimentação e comportamentos desejáveis de forma contínua. Para os meninos, o perigo ainda muito silencioso é a entrada na chamada machosfera, conteúdos que em geral se abrem por jogos, por apostas, pela pornografia, normalizam misoginia, trazem hiperfoco na força física, moldando expectativas sobre corpos e relações antes que qualquer conversa sobre afeto tenha acontecido.
A pressão pública por mudanças cresceu com a série “Adolescência” da Netflix e a imensa difusão mundial do livro de Haidt. No Brasil, o Ministério da Justiça e a Agência Nacional de Proteção de Dados já estavam a mil quando o Congresso aprovou o ECA Digital (Lei 15.211/2025, regulamentado e implementado desde abril de 2026), com responsabilidades inéditas para as plataformas e empresas do digital. Como país, estamos hoje na vanguarda da resposta dos governos em regular o que se passa na internet: mais da metade dos países do mundo já baniram smartphones das escolas; a Austrália proibiu redes sociais para menores de 16; na China o Douyin (versão chinesa do TikTok) implementou um modo adolescente para menores de 14 anos, com uso limitado a 40 minutos por dia e acesso bloqueado entre 22h e 6h, medida com justificativa ligada à proteção do sono e do desenvolvimento infantil, que muitos pais tentam impor sozinhos em casa. Proibições assim têm se mostrado acertadas e seus benefícios são evidentes. Porém, o que a ciência mais recente nos diz é que elas não bastam sozinhas.
O quadro se complexifica ainda mais quando olhamos para a inteligência artificial. O Brasil é o terceiro país no mundo que mais usa o ChatGPT, atrás apenas de Estados Unidos e Índia, com 140 milhões de mensagens enviadas por dia (OpenAI, 2025). Entre os adolescentes com smartphone, 33% já utilizam a ferramenta. E entre crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, 65% já usam alguma forma de IA generativa, segundo a TIC Kids Online Brasil 2025 (Comitê Gestor da Internet no Brasil). O acesso não é igualitário: é significativamente maior nas classes A e B. Não estamos diante apenas de uma geração que consome conteúdo passivamente. Estamos diante de uma geração que já usa IA para estudar, pesquisar, criar e tomar decisões. A pergunta não é mais se nossos filhos vão usar IA. É se vão saber fazê-lo com critério, autonomia e senso crítico.
O relatório Perspectivas da OCDE sobre Educação Digital 2026, lançado na Bett Brasil em maio de 2026, traz o dado que mais perturba: estudantes que escrevem com auxílio de IA generativa conseguem lembrar apenas 12% do que produziram uma hora depois, contra 89% dos que escrevem sem ela. A OCDE chama isso de descarregamento cognitivo. O risco não é só o que os jovens acessam. É o que deixam de construir dentro de si ao acessar. A cada dia o cenário se complexifica mais.
O que realmente funciona, então? Foi para responder a essa pergunta que um grupo internacional de pesquisadores passou um ano debruçado sobre a evidência disponível.
Evidências que a ciência encontrou
Sandra Cortesi, de Harvard, e Urs Gasser, da Universidade Técnica de Munique, coordenaram durante um ano o grupo FDCS (Frontiers in Digital Child Safety) para responder, no paper “Digital child safety at the frontier: From evidence to action”, publicado na Science em abril de 2026: o que realmente funciona? A conclusão central é que bloqueios e monitoramento secreto corroem a confiança, empurram o uso para debaixo do tapete e ignoram que o digital também oferece oportunidades muito potentes. Mais do que uma política de restrições, o que a evidência aponta é o lado transformador de uma política de design: de construção intencional de ambientes digitais mais seguros, embutida nos próprios sistemas.
Os pesquisadores identificam quatro frentes que mais funcionam:
Mediação parental ativa: Não o monitoramento secreto, mas controle parental baseado em conversa aberta, inclusive sobre os dados de aplicativos de controle, em que regras são construídas junto, o relatório de horas de uso lidos em família e a construção de confiança se torne a base da comunicação e dos acordos.
Letramento digital no currículo: O tema do funcionamento algorítmico e de seus efeitos precisa ser integrado à matemática, ciências, história, saúde e cidadania, de forma permanente, não episódica (reduzida a palestras de prevenção à violência). Como o digital entra e molda nossas vidas? Qual o preço de nosso consumo e qual pode ser nosso poder de agência? Como usar a IA com propósito para ampliar nosso pensamento e nossa capacidade de refletir em profundidade? As Perguntas Essenciais para projetos potentes são infinitas e podem começar por aí.
Guardrails e nudges no próprio dispositivo: ou seja, proteções embutidas e incentivos à comunicação devem ser obrigação de empresas e desenvolvedores digitais. A evidência mostra que o bloqueio de imagens impróprias por borrões (exigindo reconhecimento etário para liberar o acesso apenas a adultos) e ferramentas de denúncia anônima aumentam significativamente a disposição das crianças de revelar experiências negativas.
Co-design com crianças e adolescentes: Quando os jovens são sujeitos ativos e participam da criação das ferramentas de proteção (em projetos de STEM nas escolas, por exemplo), os resultados são mais adotados, perduráveis e transformadores. Toda a BNCC da computação pode mergulhar nisso.
Inverter o ônus da prova: o argumento mais corajoso do paper: em vez de reguladores terem que demonstrar que um design é nocivo, as plataformas deveriam ter que demonstrar que seus designs são seguros (como já fazemos com brinquedos, parques de diversão e segurança alimentar). E é uma felicidade saber que esse argumento está no coração do ECA Digital brasileiro, a legislação mais avançada no mundo nesse campo, regulamentada e implementada em abril de 2026.
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Famílias e Escolas
E agora a reflexão para além do paper: lei e design respondem ao ecossistema. Informam, condicionam, mas não substituem o que acontece dentro de casa, entre pais e filhos, no cotidiano de cada família, nem nas cada vez mais complexas salas de aula de nossas escolas. Se já conseguimos começar a responsabilizar empresas pelo design, o que fazer então dentro da família e nas escolas?
Três movimentos para as famílias
O risco cognitivo, emocional e mesmo físico do uso incondicionado de telas e internet é real e comprovado. Proibir o que é nocivo não é conservadorismo: é medida protetiva de saúde. Mas proibir sem preparar para os desafios de socialização e conexão que naturalmente todos nós buscamos, crianças, adolescentes e adultos, é aposta incompleta e perigosa para sujeitos em formação: o acesso nocivo pode chegar de onde menos se espera: de colegas, de familiares, em viagens. Depois de um ano de imersão nesse tema, consigo pensar três movimentos práticos, diferentes conforme a situação de cada família, e que podem ser pactuados coletivamente nas associações de pais, ecoando os ensinamentos de Jonathan Haidt.
- Adiar ao máximo o acesso.
O Movimento Desconecta, presente em 144 países, propõe: nenhum smartphone antes dos 14 e nenhuma rede social antes dos 16. Até os 12 anos, evitar qualquer exposição a smartphones e tablets, não para isolar o filho do mundo, mas para preservar uma janela de formação que não volta mais. Se vamos viver até os 100 anos, precisamos garantir que os 12 primeiros anos sejam vividos em corpo presente, com acesso restrito a telas, de preferência como no século XX: filmes e desenhos animados de duração tradicional (de 30 minutos a 1h30) na TV, tela grande.
Uma distinção que vale aprender: ter conta em rede social antes dos 14 é sempre nocivo e deve ser adiado. Navegar com propósito focado pode ser bom: assistir canais de ciências, buscar uma receita, um tutorial, editar um vídeo, ou seja, no uso do digital com propósito criativo, estamos no hall das boas práticas. Scrolling de vídeos curtos sem destino (tipo rolagem infinita) não é saudável em nenhuma idade, nem para adultos: vicia, fragmenta a atenção e impulsiona a ansiedade. Esse ambiente de vídeos curtos é, em si, um ambiente ansiogênico. Ponto.
- Reorganizar para quem já tem acesso e faz uso nocivo.
Quando a caixa de Pandora já foi aberta, o caminho é mais difícil. Em muitos casos, o confisco abrupto é ineviável, em outros, não. Mas o objetivo, sempre, é a reorganização global, ou seja, no fortalecimento da plasticidade cerebral produzindo o recondicionamento neurológico e emocional de um sistema que foi deliberadamente capturado. Os circuitos dopaminérgicos que sustentam o uso compulsivo das plataformas foram propositadamente acionados para criar o vício, não por acidente, mas por design intencional. Desfazer esse padrão exige tempo, conversa, combinados progressivos e acolhimento da abstiência que será sentida, em muitos casos com apoio médico e psiquiátrico.
Inventar protocolos de saída do digital é uma agenda urgente, a ser construída de forma multidisciplinar por psicólogos, educadores, artistas, chefs de cozinha, designers: jogar um jogo de tabuleiro, estimular a mexer com as mãos, cozinhar, desenhar, fazer slime ou massinha, montar um lego ou um quebra-cabeça, toda sorte de ação que acalma e prepara o corpo para estímulos mais lentos e analógicos. Retomar o gosto e o prazer pela leitura, pela imaginação, pelo criar é uma super tarefa para todos os modelos de família hoje.
Uma frente concreta que tem se mostrado cada vez mais útil para quem já acessa whatsapp: reduzir frentes de ruído e permitir apenas conversas individuais por vídeo no WhatsApp. Antes dos 14, idade estabelecida pelo ECA Digital, os grupos têm se mostrado uma rede social fértil para toda forma de desentendimento, comportamento agressivo de manada e bullying. No mais, o que os especialistas indicam para consumo de todos os apps recém reclassificados: quer contrariar a classificação etária indicativa do ECA digital e permitir acesso ao seu adolescente? Tenha disposição para uma intensa e por vezes muito desgastante supervisão parental, pois é o que a lei te impõe de fato a partir deste ano de 2026, ou seja, conheça bem os limites do que é impróprio e do que é ilegal para saber manejar conversas e situações difíceis envolvendo seu filho, pois elas estão chegando com frequência cada vez maior a todos os tipos de famílias, em todas as classes sociais. A Educamidia tem recursos poderosos para ajudar todas as famílias, mas também as escolas.
- Agência pelo design: construir repertório, não só fronteiras.
Os primeiros dois movimentos são essencialmente protetivos: adiar e reorganizar. O paper de Cortesi e Gasser vai além: identifica no co-design a frente mais transformadora, ou seja, quando os próprios jovens participam ativamente das decisões sobre seu uso digital, os resultados são mais duradouros do que qualquer proteção externa. Quando crianças e adolescentes entendem como funcionam os algoritmos, reconhecem padrões de manipulação e participam das decisões sobre seu próprio uso, o que se constrói por dentro (através de escolha, compreensão e pertencimento) tem mais força do que o que é imposto de fora. Mas esse tipo de construção não acontece no vácuo: ela precisa de um lugar seguro, de um tempo protegido, de adultos que a sustentem com acolhimento. E quando funciona, esse lugar é a escola.
A escola como lugar revolucionário
Como educadora, seria impossível diminuir o papel que a escola pode e deve cumprir nesse debate. Trata-se de sonhar e fazer acontecer o que a escola pode ser quando funciona de verdade: um lugar coletivo, comunal, onde o aprender não é individual nem fragmentado e onde o adolescente tem a chance rara de se descobrir a si, ao outro, ao mundo que o constitui, experimentando conflitos como oportunidade de aprendizagem e como parte do processo de amadurecimento.
Isso é exatamente o que Paulo Freire e John Dewey nos ensinaram, cada um a seu modo. Dewey, há mais de um século atrás, já afirmava que aprender é fazer, ou seja, a escola não poderia mais mais se reduzir a ler e escutar aulas-palestra sobre o mundo, mas investigar questões, perguntar, debater, testar, errar, refazer, experimentando práticas contextualizadas com sentido e significado para quem aprende. Em caminho parecido, Freire dizia que o sujeito se descobre na ação, na consciência de si e de seu agir mediatizado pelo mundo, ou seja, se descobrir na relação dialógica com o outro, no diálogo que nos constitui como sujeitos e que nos permite criar, e recriar um novo mundo. Nenhum dos dois estava pensando em telas, mas ambos estavam descrevendo exatamente o papel da educação na formação de sujeitos de direito que alicerça a democracia e que hoje, o uso acrítico da tecnologia ameaça: a consciência reflexiva, a experiência de fazer junto, de ter voz sem anular o outro, de pertencer a um campo de valores democráticos compartilhados em que o conflito e a divergência ensinam e tem espaço pois se aprende a dialogar, a argumentar, a experimentar dissensos e construir consensos assegurando os valores e direitos democráticos.
Nesse sentido, muito além de palestras avulsas sobre desafios e perigos da internet, o que a escola transformadora precisa oferecer é uma tarefa estruturante: um letramento de cidadania que englobe o digital, e que seja tecido de forma permanente e interdisciplinar, que não se reduza a aprender a programar, mas que forme alguém capaz de respeitar pontos de vista diferentes, ler um algoritmo como se lê um texto, desvelando intenção, perguntando por fontes e finalidades, reconhecendo autoria. Entender que por trás de cada feed, cada sugestão de compra ou conteúdo, cada notificação há uma arquitetura projetada para capturar atenção. Ou seja, para além do conhecimento técnico, não ficar na sintaxe do código, mas compreender a gramática do poder que os sistemas carregam: isto é, desenvolver a consciência crítica que articula a BNCC computação a todas as 10 competências gerais, com pensamento crítico e criativo, com autoconhecimento, com história, com linguagem, com matemática, com ciências, com as artes. É o tipo de saber que permite ao adolescente se tornar sujeito da própria experiência digital, em vez de objeto dela.
Um recurso poderoso para esse letramento é o recém publicado livro “A Geração Incrível”, de Jonathan Haidt e Catherine Price, que reúne histórias d epersonagens diversos narrada em quadrinhos em um enredo que articula consciência crítica sobre o mundo dos algoritmos com testemunhos de adolescentes que foram viciados digitais e encontraram o caminho de volta. Deveria ser leitura em toda escola a partir dos 10 anos: os estudantes de hoje precisam e merecem ter acesso a esse tipo de saber. Oxalá daqui a algum tempo essa leitura só precise começar mais tarde, porque o ambiente digital terá sido redesenhado para protêgê-los antes.
Sonhos possíveis que já estão virando realidade
E se a escola propusesse aos estudantes um projeto de criação e pesquisa (design thinking) a partir do mapeamento de uma necessidade real do território educativo (no sentido freiriano do tema gerador)? Refazer uma praça, uma sinalização de prevenção a doença, a construção de um equipamento de lazer, a melhoria de um mobiliário? Não apenas para ouvir moradores, pesquisar, desenhar e propor uma solução, mas gerar conteúdo de mídia para, por exemplo, envolver a comunidade e divulgar a iniciativa como um movimento por meio das redes sociais da escola? Para isso, além do design de ideias e fabricação de objetos, os estudantes precisam entender o alcance algorítmico, criar conteúdo, deixá-lo atraente, aprender a usar as ferramentas digitais que antes os capturavam. Novamente o aprender fazendo, como Dewey apregoava. Mas também, no território real da comunidade, da cidade, do campo, da floresta, tomar consciência pelo pertencimento, pelo engajamento, como Freire propunha. Só que transformando também o algoritmo em parte do material didático. Esse projeto não é utopia distante: é o que pode acontecer em qualquer escola quando escola e famílias decidem construir algo juntos. Quando a aldeia da comunidade escolar funciona de verdade, aprendendo em comunidade.
Isso já está acontecendo. Nas escolas públicas brasileiras, há adolescentes que habitam exatamente esse lugar.
No sertão paraibano, Kauã Henrique, aluno de escola pública, transformou o problema do seu território em código. A seca, o solo, a escassez hídrica do semiárido (temas geradores no sentido mais freiriano) viraram o SOLUS, sistema de monitoramento hídrico, nutricional e ambiental do solo, projetado para apoiar decisões agrícolas e mitigar desigualdades. Kauã ganhou medalha de prata na Maratona Tech 2025, a maior competição de tecnologia entre escolas do Brasil. Ele não aprendeu sobre o semiárido. Aprendeu dentro dele, pelo fazer.
Em Cajazeiras, também na Paraíba, uma turma do primeiro ano do ensino médio do IFPB (Instituto Federal da Paraíba) pegou o Instagram pelo avesso. Entenderam como o algoritmo funciona e usaram esse entendimento para construir cidadania digital na própria comunidade, com memes e vídeos sobre Marco Civil da Internet, LGPD e discurso de ódio. Venceram o Prêmio Cidadania Digital em Ação da SaferNet Brasil. O professor João Paulo Freitas foi ao palco em São Paulo, às lágrimas, com a bandeira da Paraíba nas mãos. O que ele disse condensa o que Freire entendia por ganho de autonomia: “O protagonismo foi dos meus estudantes. Desde o início, eu apresentava o conteúdo e eles assimilavam e elaboravam estratégias para compartilhar esses conhecimentos com a comunidade escolar.” Adolescentes que aprenderam como o jogo funciona e passaram a jogá-lo pelos próprios propósitos.
Em Petrópolis, o CIEP Cecília Meireles (escola estadual pública) produziu uma experiência ancorada na empatia como método. As alunas Mariany da Costa Oliveira e Júlia Anastácia do Nascimento perceberam a dificuldade que imigrantes e refugiados enfrentam ao chegar ao Brasil sem falar o idioma. Mariany tinha um familiar com deficiência auditiva, e foi ela quem fez a pergunta que mudou tudo: e se acolhêssemos os imigrantes surdos com a tecnologia? Nasceu o Acolhe Brasil, plataforma de apoio a imigrantes com interface em quatro idiomas e acessibilidade em Libras. O projeto foi premiado pelo programa Jovens pela Paz da UNESCO, selecionado entre mais de 8 mil inscrições ao redor do mundo.
Três escolas públicas, três territórios, três modos de provar a mesma coisa: quando a escola abre espaço e ajuda a enxergar um problema real, oferece um tempo protegido para o aprender e tem adultos que sustentam esse currículo transformador, os adolescentes inventam o que ainda não existe. É o que Paulo Freire chamava de inéditos possíveis. Estão todos aí, só precisamos enxergá-los, desenhá-los. Sonhar junto é já fazer esse novo possível nascer.
Construir aldeia
O clássico provérbio africano diz “é necessário uma aldeia inteira para educar uma criança”. Nas configurações familiares contemporâneas estamos carentes de aldeia. Reconstruir algum aldeamento exige hoje bem mais do que boa vontade individual. Primeiro é necessária a regulação que protege, responsabiliza empresas, freia danos e pune crimes, como propõe o ECA Digital. Em seguida, é necessário a criação de repertório potente para navegar no digital e trazer força à comunidade escolar.
Sujeitos em formação podem construir coletivamente o que ainda não existe: aquilo que só nasce quando pessoas se reúnem em torno de uma tarefa para o bem comum. A geração que hoje tem entre 10 e 20 anos é a primeira a crescer inteiramente dentro do mundo digital. Se aprenderem a habitá-lo com agência e critério, poderão redesenhá-lo de dentro, não apenas sobreviver aos algoritmos, mas reescrevê-los.
Temos evidência, temos uns aos outros e ainda temos a escola como lugar potente de elaboração coletiva. É isso que uma aldeia bem construída pode fazer: não a nostalgia de um tempo sem telas, mas a invenção de algo que ainda não existe: experiências compartilhadas, comunais, em que famílias, escola, crianças e adolescentes produzem juntos os modos de habitar o digital com mais liberdade e menos captura. No fundo, uma velha tarefa humana há séculos nomeada pela filosofia: inventar coletivamente a liberdade, a autonomia, a democracia, porém agora mediados pela mutante e complexa ferramenta e linguagem do digital. E não tem jeito: para caminhar nessa floresta densa de perigos e de imensas riquezas e possibilidades, precisamos uns dos outros para abrir a trilha e inventar melhores mapas.
Referências
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COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (CGI.br). TIC Kids Online Brasil 2025. São Paulo: Cetic.br/NIC.br, out. 2025. Disponível em: https://www.cetic.br. Acesso em: mai. 2026.
CORTESI, Sandra; GASSER, Urs. Digital child safety at the frontier: From evidence to action. Science, Washington, v. 392, n. 6793, p. 30-32, 2 abr. 2026. DOI: 10.1126/science.aec7804.
HAIDT, Jonathan. A geração ansiosa: por que a infância hiperconectada é prejudicial às crianças. Tradução de Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Intrínseca, 2024.
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MOVIMENTO DESCONECTA. Acordo voluntário entre famílias pelo adiamento do smartphone e das redes sociais na infância. Disponível em: movimentodesconecta.com.br. Acesso em: mai. 2026.
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