Muito Além do Quebra-Cabeça: O Tangram como Ferramenta de Equidade e Rigor Matemático

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Sandra Mônica de Paulos

Pedagoga, com formação também em Letras e Matemática. Especialista em Gestão Escolar pela Universidade de São Paulo (USP), Psicopedagoga (clínica e institucional) e Neuropsicopedagoga institucional, em fase de conclusão da Neuropsicopedagogia clínica. Atua há mais de 30 anos como professora, com experiência nos anos finais do Ensino Fundamental I e Ensino Fundamental II, desenvolvendo práticas pedagógicas fundamentadas em equidade, rotinas de pensamento, aprendizagem visível e mentalidades matemáticas. Atua também como psicopedagoga, realizando intervenções clínicas e institucionais com foco em linguagem, funções executivas, raciocínio lógico e dificuldades de aprendizagem. Desenvolve materiais próprios, jogos, protocolos de intervenção e estratégias de avaliação psicopedagógica. Realiza assessoria pedagógica a estagiárias e professoras, apoiando práticas inclusivas e o ensino de Matemática com foco em compreensão e participação de todos os alunos. Idealizadora do NeuroMatematicando, iniciativa que articula pedagogia, psicopedagogia e neuropsicopedagogia para tornar a matemática mais acessível, visual e significativa. Pesquisadora vinculada ao LIEENP (Laboratório de Investigação em Educação, Experiência e Narrativas Pedagógicas), com foco em práticas equitativas, aprendizagem matemática, cognição e ensino. Autora de planos de aula, materiais didáticos, jogos pedagógicos e conteúdos de formação docente, com ênfase em aprendizagem matemática, funções executivas e estratégias de ensino com intencionalidade pedagógica.

É comum entrar em uma sala de aula e ver o Tangram como passatempo, um “quebra-cabeça” para encaixar formas ou reconhecer figuras geométricas. Mas, quando olhamos para ele à luz das Mentalidades Matemáticas (Jo Boaler) e da Diferenciação Pedagógica (Rhonda Bondie), percebemos que esse conjunto simples de peças carrega um potencial muito maior do que aparenta.

O Tangram devolve à matemática o que ela tem de mais humano: o toque, o olhar, a construção, o movimento. E, quando a matemática volta para as mãos, ela volta para todos.

Sempre acreditei que cada criança precisa de uma porta de entrada possível e digna. Que rigor não se mede pela dificuldade, mas pela profundidade do pensamento. E que equidade não é improviso: é design pedagógico.

Nesta semana, levei para duas turmas a proposta “Configurações do Tangram”. O meu desafio era claro: desenhar uma aula onde todos pudessem participar, com:

  • piso baixo (uma entrada acessível),
  • teto alto (um desafio para quem consegue ir além),
  • lateralidade (opções de escolha, manipulação e representação),
  • rigor conceitual (frações, equivalência, decomposição, área, simetria).

Tudo isso sem mudar o objetivo da aula.

 

O início: uma rotina que abre olhos e pensamentos

Projetei os primeiros slides com a rotina “Vejo-Penso-Pergunto”.

É uma porta de entrada generosa, que convida as crianças a observar antes de concluir, a levantar hipóteses antes de resolver, e a fazer perguntas que ajudam a construir sentido.

Enquanto observavam a imagem completa do Tangram, perguntei:

“Quantos triângulos grandes vocês acham que seriam necessários para formar o quadrado?”

“E se fossem triângulos pequenos? Como podemos estimar?”

As estimativas foram surgindo espontaneamente, e eu as registrava na lousa para retomarmos depois. Esse momento inicial já estava alinhado ao meu OSCAR (Objetivo, Situação, Critérios, Ação e Reflexão): eu queria que descobrissem as relações entre as peças, investigando área e equivalência.

 

A investigação: quando a matemática cabe nas mãos

Depois da Rotina, entreguei Tangrans completos para todos.

Expliquei apenas o essencial:

“Vocês precisam descobrir qual fração do quadrado cada peça representa. Usem as peças como preferirem.”

 

 

A partir daí, a investigação ganhou vida.

As crianças começaram a sobrepor peças, testar combinações, desmontar e reconstruir. O material concreto criou o que eu chamo de matemática visível, aquela que aparece aos olhos e se confirma nas mãos.

O início da investigação: material concreto disponível para todos, convidando à manipulação livre.

 

O Piso Baixo: uma entrada sensorial que não compromete o rigor

Para alguns estudantes, a escrita de frações (1/4, 1/16) ainda é uma barreira abstrata.

Mas a ideia de parte e todo é totalmente acessível visualmente.

Enquanto a turma investigava em seus ritmos, sentei-me com uma estudante que precisava de um ponto de partida mais concreto.

Perguntei:

“Quantos triângulos pequenos você acha que precisamos para cobrir o quadrado?”

Ela não respondeu por palavras. Respondeu com o corpo:

  • pegou duas peças, 
  • sobrepôs,
  • ajustou,
  • confirmou visualmente a equivalência.

 

 

Nesse momento, a mágica aconteceu. Ela não estava apenas brincando. Ela está comprovando o princípio da conservação de área. Ela viu, com as próprias mãos, que dois triângulos pequenos equivalem a um quadrado médio. Ela acessou o conceito de equivalência e de metade, sem precisar escrever um único número.

Isso é Piso Baixo: permitir que o aluno entre na matemática complexa através de uma porta sensorial.

Além disso, para registro, a aluna utilizou a tabela numérica, a fim de consultá-la, se necessário, para registro dos algarismos necessários. 

O Teto Alto: quando o desafio cresce junto com o pensamento

Enquanto isso, para o restante da turma, o desafio ganhou profundidade. O Teto Alto não significa “fazer mais exercícios”, mas sim pensar mais fundo.

Lancei a provocação que muda a direção da aula:

“Se o quadrado completo vale 1, quanto vale cada peça individual?”

“Provem para mim.”

A sala ganhou energia.

Alguns contaram quantas vezes o triângulo pequeno cabia no quadrado.

Outros desenharam sobre o Tangram.

Outros partiram para cálculos mentais de proporção.

Chegaram a conclusões como:

  • o triângulo pequeno é 1/16,
  • o quadrado médio é 1/8,
  • dois triângulos pequenos = um quadrado médio,
  • um paralelogramo + dois triângulos pequenos = um triângulo grande.

Eles somaram frações naturalmente, não porque eu pedi, mas porque precisaram justificar visualmente.

A necessidade intelectual puxou o conceito.

Isso é Teto Alto: rigor que nasce da investigação. Uma Sala, Múltiplos Caminhos e, o mesmo objetivo.

A prática desse dia reafirmou o que Rhonda Bondie defende no modelo All Learners Learning:

  • Equidade não é criar atividades paralelas para cada aluno.
  • Equidade é ajustar o design, não o objetivo.
  • O Objetivo (OSCAR) permaneceu o mesmo: compreender frações como áreas.
  • O Acesso (EAO) foi ajustado: manipulação concreta para alguns; generalização abstrata para outros.
  • O Rigor foi mantido para todos.

Saí da aula com a certeza de que equidade não é baixar a régua.

É permitir que todos alcancem o mais alto nível possível, cada um pelo caminho que faz sentido para si.

E que, às vezes, sete peças simples (um quadrado que se desmonta e se recompõe) podem revelar mais sobre a potência de uma turma do que qualquer avaliação formal.

O Tangram não é apenas um quebra-cabeça.

É uma janela para a equidade.

E uma ponte para o rigor.

 

 

Respostas de 6

  1. Querida Sandra que prática incrível! Amei como você conduziu a atividade e demonstrou claramente o que é piso baixo, teto alto e todos os ajustes para a equidade!!! Explica melhor para nós o que é OSCAR e EAO!!!

    1. Juuuuu… fiquei muito feliz com o seu comentário!!
      Pra mim, o OSCAR organiza a intencionalidade da aula, ou seja, o que quero que o aluno pense e como isso se sustenta.
      E o EAO entra como o olhar para o acesso: como todos conseguem participar, cada um do seu jeito, sem mudar o objetivo.
      No fundo, é isso: rigor com equidade.
      Obrigada pelo olhar tão generoso senpreee!!!

  2. Parabéns, San! Eu vejo o quanto os alunos são motivados e engajados em suas aulas. Muita admiração por você!

  3. Amiga, eu vi o seu trabalho e achei simplesmente lindo! Que forma incrível de explicar sobre “teto alto e teto baixo” para as crianças ,deu pra ver o quanto foi leve, lúdico e ao mesmo tempo tão significativo.
    Você tem um dom especial de ensinar e inspirar, de verdade. Sempre te admirei. Parabéns pelo carinho e dedicação, isso faz toda a diferença na vida deles! ✨👏

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