Avaliação: de mecanismo de controle a motor da aprendizagem

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Julia Pinheiro Andrade

Ideias-chave deste artigo

Da sala de aula à vida: o que muda quando avaliar deixa de punir e passa a impulsionar?
Conceitos-chave para pensar o ensino, a avaliação e a aprendizagem em um continuum que forma pensamento crítico e reflexivo para impulsionar mais aprendizagem, e jamais se resume a notas finais.

Avaliação: fim ou meio?

Costuma-se diferenciar o pensamento sobre a avaliação em duas grandes modalidades: a avaliação da aprendizagem — também chamada de avaliação somativa — e a avaliação para a aprendizagem — também conhecida como avaliação formativa.
A avaliação somativa evidencia resultados em “retratos” pontuais do percurso, servindo para registrar, certificar e comunicar desempenhos. Já a avaliação formativa acompanha o processo como um “filme”: produz evidências que ajudam a compreender o desenvolvimento, orientar devolutivas (feedbacks) e ajustar as estratégias de ensino e aprendizagem.

Nos dois casos, avaliar é o momento em que a escola torna visível o que realmente valoriza: o que conta como aprendizagem, o que merece ser reconhecido e o que precisa ser aprimorado. Avaliar significa atribuir valor, emitir juízo, reconhecer ou negar aprendizagens, validar processos ou seus produtos. Por isso, é parte indissociável do ensinar: permite que professores e estudantes se tornem aprendizes de sua própria prática, revendo decisões e redefinindo rumos pedagógicos à luz das evidências coletadas.

No entanto, no Brasil, esse momento costuma ser marcado pelo estresse. Em grande parte das escolas, a avaliação é usada de forma restrita como instrumento somativo: converte-se em mecanismo de controle, punição e ranqueamento, limitando-se a verificar resultados já alcançados, em vez de apoiar o desenvolvimento. Mas a avaliação pode — e deve — ser parte viva do aprender. Mesmo uma prova bimestral pode se tornar experiência de aprendizagem se planejada para provocar pensamento, diálogo e reflexão, tanto para professores quanto para estudantes. Quando estruturada em torno de situações-problema, análise de documentos ou interpretação de diferentes perspectivas, a própria prova se converte em experiência de pensamento crítico e em oportunidade real de aprendizagem.

Black e Wiliam (2018) definem a avaliação para a aprendizagem como aquela que fornece informações que podem ser utilizadas por professores e estudantes em devolutivas capazes de reorientar a ação pedagógica. Esse tipo de prática formativa só ocorre quando as evidências coletadas realmente modificam o percurso de ensino. John Hattie (2017) mostra, em suas meta-análises, que o feedback contínuo é um dos fatores de maior impacto no aprendizado. Avaliar, nesse sentido, não é medir para punir ou classificar, mas criar pontes que ajudem o aluno a compreender e ganhar consciência de onde está, para onde precisa ir e como pode chegar lá.

Mas é possível avançar ainda mais. Conforme detalhamos em nosso capítulo com este tema no livro “Aprendizagens Visíveis:experiências teórico-práticas em sala de aula” (ANDRADE, 2021), Segundo Lorna Earl (2013), há uma terceira e mais potente modalidade: a avaliação como aprendizagem. Por meio dela, o estudante deixa de ser apenas receptor de devolutivas e passa a assumir papel ativo, desenvolvendo sua metacognição e autoregulação. A autoavaliação se torna central: os alunos monitoram seus progressos, ajustam rotas e aprendem a pensar sobre sua própria aprendizagem. Black et al. (2018) reforçam que um dos maiores desafios para os professores é justamente levar os estudantes a refletirem sobre seus trabalhos à luz dos objetivos de aprendizagem; mas, quando isso acontece, eles desenvolvem autonomia intelectual e capacidade crítica.

Infelizmente, ainda prevalece em nossas escolas um modelo em que o professor transmite conteúdos e depois aplica provas focadas em memorização. Esse formato, centrado no ensino e não na aprendizagem, se mostrou particularmente frágil durante a pandemia, quando ficou evidente a necessidade de colaboração, comunicação em múltiplas linguagens e construção crítica de sentido frente a informações contraditórias. Em tempos de fake news e manipulações sofisticadas de informações, imagens, textos e autoridades, não basta decorar dados: é preciso aprender a analisar, compreender em maior profundidade, avaliar perspectivas, ponderar evidências e agir com responsabilidade ética diante de problemas locais e globais. Como lembrou Andreas Schleicher, diretor de Educação da OCDE, em entrevista à Folha de S.Paulo (2020):

“Se penalizarmos os erros, se só pedirmos a resposta certa, os alunos não serão criativos. Professores precisam dar espaço para os alunos desenvolverem seu próprio raciocínio.”

Dois modelos ainda se repetem em excesso: o ensino orientado pela cobertura de conteúdos, que valoriza a quantidade em detrimento da profundidade, e o ensino fragmentado em atividades sem objetivos claros. Grant Wiggins e Jay McTighe (2019) chamam essas duas práticas de “pecados capitais” do ensino, contra os quais propõem o planejamento reverso: começar pela definição dos objetivos finais — os resultados a serem alcançados — e então alinhar currículo, ensino e avaliação em torno deles. É preciso rever o modo de pensar o ensino e francamente responder à pergunta essencial da educação hoje: queremos, afinal, formar estudantes capazes apenas de lembrar e repetir, ou cidadãos capazes de compreender, transferir conhecimentos e aplicá-los em situações novas e complexas?

A aprendizagem profunda não acontece por memorização ou exercícios repetitivos. Esses processos são importantes para criar memórias de trabalho e de longa duração com informações e vocabulário que os estudantes necessitam para pensar, analisar e resolver problemas. Por isso, a memorização é só a primeira parte do aprender: a consolidação de memórias por treino e repetição. Competências não se ensinam diretamente; elas se desenvolvem por meio de múltiplas experiências, revisão de erros, reflexão e uso autêntico do conhecimento. Ler criticamente, por exemplo, exige anos de prática em diferentes gêneros e áreas. Escrever criticamente, além de habilidade e treino com bons modelos, exige um trabalho denso de revisão: reler, refletir sobre imprecisões, readequar vocabulário, encontrar novos caminhos argumentativos e reescrever.

O PISA 2018 revelou que apenas 50% dos jovens brasileiros atingiram o nível básico de proficiência em leitura. Nos resultados mais recentes, do PISA 2022, o cenário manteve-se praticamente estagnado: 47% alcançaram o nível mínimo, e o Brasil obteve 410 pontos em leitura, abaixo da média da OCDE (476 pontos). Esses dados indicam que, apesar de avanços localizados, o país segue com cerca de metade dos adolescentes sem dominar competências fundamentais de leitura e interpretação, o que reforça a persistência de uma crise de aprendizagem estrutural, ancorada em um modelo pedagógico ainda “bancário”, para usar a expressão de Paulo Freire. Isso mostra que não basta ensinar técnicas ou treinar fragmentos de texto (como nas práticas de treino para o Saeb); é preciso desenvolver disposições cognitivas e afetivas que levem os estudantes a compreender e pensar criticamente — e isso só se alcança em contextos autênticos de aprendizagem e comunidades de prática.

Guy Claxton (2018) lembra que o ensino adequado ao século XXI precisa cultivar hábitos de questionamento, de mergulho profundo e de busca pelo sentido do que se aprende. Aprender é enfrentar o difícil e persistir, aprendendo com o erro — tanto sobre o problema quanto sobre si mesmo. Claxton usa a metáfora do mergulho: ninguém chega às águas profundas sem dominar antes a respiração e a confiança da piscina. Da mesma forma, o estudante precisa de experiências cumulativas e seguras no espaço escolar, que o levem a avançar de camadas superficiais (conhecimentos factuais e análises elementares) a níveis mais complexos (habilidades e competências de compreensão) e, por fim, a dimensões invisíveis como atitudes e disposições.

A avaliação formativa é essencial nesse percurso: documenta a aprendizagem, permite revisitar o processo e aperfeiçoá-lo. Por meio de portfólios, registros reflexivos ou estruturas analíticas simples, o estudante pode comparar “o que pensava antes” e “como pensa agora” sobre uma mesma questão, tornando visível o próprio avanço intelectual e conceitual. Ferramentas de autoavaliação, como Rotinas de Pensamento visível e gráficos de radar ou rubricas, tornam perceptíveis esses progressos. Quando o estudante se vê aprendendo, ele se torna autor do próprio processo. Nesse movimento, a avaliação deixa de ser um evento isolado e passa a integrar o ciclo da aprendizagem: engajamento, investigação e demonstração do que se compreendeu. A etapa somativa torna-se apenas a síntese natural de um percurso vivido e documentado — e não seu ponto de chegada.

No século XXI, não basta reproduzir habilidades validadas na escola do século passado. É preciso reposicionar temas, processos e valores pedagógicos para que as práticas escolares dialoguem com o contexto social atual e ajudem a desenvolver competências fundamentais, como pensamento crítico, colaboração e criatividade. John Hattie (2017) resume o desafio desse projeto pedagógico de forma clara e inspiradora:

“O ensino e a aprendizagem visíveis acontecem quando os professores aprendem a olhar pelos olhos dos alunos, e quando os alunos ganham ferramentas para passarem a se ver como seus próprios professores.”

Esse é o horizonte: uma avaliação que não controla, mas emancipa; que não classifica, mas forma para a autonomia; que não fecha, mas abre caminhos para uma aprendizagem contínua, com sentido e relevância — seja para desenvolver maiores capacidades de raciocínio (fundamentais, por exemplo, para compreender conceitos abstratos da matemática e da filosofia), seja para realmente ajudar os estudantes a compreender o mundo e se inserir na vida contemporânea com mais autoria.

REFERÊNCIAS

 ANDRADE, H. G. “Using rubrics to promote thinking and learning”. Educational Leadership, v. 57, n. 5, 2000. 

ANDRADE, J. P.. “Avaliação como aprendizagem: contribuições para tornar visíveis os objetivos e processos de aprendizagem na Educação Integral”. In: Aprendizagens Visíveis: experiências teórico-práticas em sala de aula. São Paulo: Panda Books, 2021.

ANDRADE, J. P.; COSTA, N.; WEFFORT, H. F. Currículo e Educação Integral na prática: uma referência para estados e municípios. Cadernos 1 e 2. Plataforma Metodologia de Currículo para a Educação Integral. São Paulo: Centro de Referências em Educação Integral/British Council, 2019.

ANDRADE, J. P.; COSTA, N.; BRANDÃO; D. TIBURCIO, W.; MORAES,J. Avaliação na Educação Integral: elaboração de novos referenciais para políticas e programas. São Paulo: Centro de Referências em Educação Integral/Itaú Social/Move Social, 2020.

 BLACK, Paul; WILIAM, Dylan. Inside the black box: raising standards through classroom assessment. Phi Delta Kappan, v. 80, n. 2, p. 139–148, out. 1998.

BLACK, Paul; HARRISON, Christine; LEE, Clare; MARSHALL, Bethan; WILIAM, Dylan. Trabalhando por dentro da caixa preta: avaliação para a aprendizagem na sala de aula. Cadernos Cenpec (Nova série), São Paulo, v. 8, n. 2, p. 153–183, jul./dez. 2018.

 CLAXTON, G. Wise up: the challenge of lifelong learning. Londres: Bloomsbury, 1999.

 _____. “Deep rivers of learning”. Phi Delta Kappan, v. 99, n. 6, pp. 45-48, 2018a. 

_____. The learning power approach: teaching students to think for themselves. California: Corwin, 2018b.

EARL, L. “Assessment for learning; assessment as learning: changing practices means changing beliefs”. In: Assessment and learning, v. 2, n. 80, 2013. 

_____. Assessment as learning: Using classroom assessment to maximize student learning. 2a ed. Califórnia: Corwin Press, 2013.

 HATTIE, J. Aprendizagem visível para professores. São Paulo: Penso Editora, 2017.

WIGGINS, G.; MCTIGHE, J. Planejamento para a compreensão: alinhando o currí culo, avaliação e ensino por meio do planejamento reverso. 2a ed. Porto Alegre: Penso Editora/Instituto Canoa/Fundação Lemann, 2019. 

WILIAM, D. Embedded formative assessment. Bloomington/IN: Solution Tree, 2018.

Respostas de 2

    1. Muito obrigada por sinalizar a falta da referência, já corrigimos no texto.

      O texto fundacional dos 2 autores ingleses inaugurando as evidências em avaliação formativa são:
      BLACK, Paul; WILIAM, Dylan. Inside the black box: raising standards through classroom assessment. Phi Delta Kappan, v. 80, n. 2, p. 139–148, out. 1998.
      BLACK, Paul; HARRISON, Christine; LEE, Clare; MARSHALL, Bethan; WILIAM, Dylan. Trabalhando por dentro da caixa preta: avaliação para a aprendizagem na sala de aula. Cadernos Cenpec (Nova série), São Paulo, v. 8, n. 2, p. 153–183, jul./dez. 2018.

      Também uma versão em português em entrevista muito boa: https://observatoriodeeducacao.institutounibanco.org.br/api/assets/9489a4b5-0ece-4250-8512-bda5abbe52a9/

      Feliz 2026!

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